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Fazendo um filme no celular: dicas, processos e ferramentas do nosso primeiro curta autoral

Estamos muito acostumados a ver conteúdos informativos, institucionais e o dia-a-dia na linguagem do celular. Mas não é tão comum vermos conteúdos dramáticos usando essa linguagem. Foi essa quebra de paradigma que motivou os sócios e diretores do Qu4rto Studio a filmar um curta todo no celular e compartilhar a experiência com a gente!



Conteúdos informativos, institucionais e publicitários no celular já acontecem há um tempo, porém não é tão comum vermos conteúdos dramáticos, ou seja filmes, curtas e séries produzidos com essa ferramenta.


Além disso, é importante pontuarmos a presença do celular nas nossas vidas. Cada vez mais ele se torna uma extensão do nosso corpo e, por esse motivo, é inegável que existe uma forte empatia entre o expectador e a personagem quando utilizamos essa linguagem. Ver um filme através da tela do telefone, é quase como participar daquele momento.


Pensando nessas questões, o diretor do curta e sócio do Qu4rto Studio, Evandro Caixeta, respondeu algumas perguntas sobre a produção de AzulScuro, o primeiro curta autoral do Qu4rto, que você confere abaixo.


Como surgiu a ideia de gravar um curta no celular? Qual a proposta de linguagem e suas implicações nos dias atuais?


Acho antes mesmo de falar de filmes no celular, nós temos que falar de linguagens alternativas nos filmes. Desafiar as expectativas do que deve ser um filme está na raiz do cinema. Nós vemos isso muito em filmes de terror como Bruxas de Blair que desencadeou o estilo found footage, como se alguém tivesse encontrado a filmagem do que aconteceu no filme, ou Atividade Paranormal, que simula as câmeras de segurança da casa. O filme The Connection de 1961 já utilizava esse tipo de linguagem disruptiva.



Isso nos motivou a utilizar uma linguagem fora do padrão para contar a nossa história, torná-la mais intimista e por mais que a história seja surreal, isso a torna muito mais real e palpável. Existem outros filmes feitos no celular, mas muitas vezes ele é utilizado como uma câmera tradicional, com os ângulos e movimentos tradicionais. Mas nós resolvemos utilizar ele como um celular na mão da protagonista, e nós vemos tudo que acontece não só na câmera mas nos aplicativos e pesquisas da protagonista.


A relação da linguagem com o terror: Quais os desafios, inspirações e aprendizados do processo?


Eu sempre fui fã de filmes de terror. Mas recentemente eu entendi uma coisa que me motivou ainda mais para produzir filmes no gênero: é um gênero que aceita a diferença, que você consegue fazer com um baixo orçamento um filme impactante.


Muitas vezes, para o terror, é mais importante o que não é mostrado, o que deixamos na imaginação do público do que é mostrado. Um exemplo clássico é Jaws, em que eles tiverem um problema com o tubarão robótico e, com isso, ele praticamente não aparece no filme. Justamente porque deixa tanto espaço para a imaginação do espectador que o filme fica tão grandioso.



Das etapas para construção do roteiro, quais são as particularidades na hora de escrever um curta para o celular?


O roteiro foi feito em conjunto com o nosso parceiro roteirista André Oliveira, e um dos nossos primeiros desafios foi entender que tipo de história faria sentido ser contada no celular. Além disso, entender o que a tela possibilitava: possibilitava que víssemos a pesquisa no Google da personagem e também vermos o que ela começa a escrever no WhatsApp e depois apagava.


A ideia de escrever e apagar é uma das ferramentas utilizadas na criação para que fosse possível expressar os pensamentos e emoções da personagem a partir de uma coisa tão simples como uma mensagem de texto.


Outro desafio do roteiro foi que, mesmo que o curta metragem fosse reduzido a aproximadamente 15 minutos, o roteiro foi desenvolvido em 25 páginas. Isso aconteceu, principalmente, porque ações dentro do telefone precisavam ser descritas.




Preparação dos atores: quais as etapas e fundamentos?


Como a atriz, Larissa Bocchino, também seria a câmera, nossa preparação foi baseada na atriz habitar a personagem, entender a motivação e objetivo de cada cena. Para que, na hora da gravação, ela agisse naturalmente, como se fosse uma pessoa real com o celular na mão.


As nossas reuniões e ensaios foram muito mais relativos a atriz habitar a personagem e entender como a personagem pensa. Assim, quando ela chegasse no set, a preocupação maior seria da relação com o celular como câmera, muito menos que o sentimento, as falas e afins.



E, pensando na utilização da câmera, uma outra esfera importante da produção do curta-metragem foi a fotografia, dirigida pelo João Gilberto, também diretor e sócio do Qu4rto. Sobre a diferença da abordagem tradicional, ele responde algumas perguntas pra gente.


Como foi a concepção da fotografia e arte do curta?


Como o objetivo era que a personagem transitasse livremente entre os cômodos da casa, foi muito importante que a direção de fotografia e de arte estivessem mais alinhadas que nunca. Assim, em primeiro lugar, os elementos da casa precisavam emitir luz, além de compor o ambiente.


A Raquel Almeida, que fez a direção de arte, alugou cerca de 13 luminárias que foram colocadas em pontos estratégicos para criar a composição da fotografia, sem precisar de outra fonte. Assim, a atriz só era acompanhada pelo técnico de som durante a gravação.


Quais ferramentas foram utilizadas para aprimorar a fotografia?


Primeiro, é importante pontuar que o curta foi filmado tanto com a câmera frontal, quanto com a câmera traseira do iPhone 11 Pro. A atriz carregava os dois telefones o tempo todo, vendo os aplicativos e a tela do telefone em um deles, enquanto o outro filmava.


Além disso, utilizamos o aplicativo Filmic Pro. Ele permite transformar a câmera do telefone em uma câmera profissional. Ou, seja, ele te habilita a usar recursos de ajuste que a câmera puramente não permitiria, como controle do ISO, do obturador, entre outras manipulações de controle mais preciso.




Para finalizar, deixamos para você algumas outras produções feitas com a câmera do celular:

Videoclipe da música "Stupid Love", da Lady Gaga

Tangerine (2015), gravado no iPhone 5s.

Propaganda do iPhone 11, filmada por mais de 5 horas seguidas.

Clipe do Marcelo D2, de Resistência Cultural, filmado no iPhone.



Esse post foi desenvolvido a partir do primeiro episódio do podcast Qu4rto no Quarto. O segundo episódio já está no ar! Confere no Spotify. Até a próxima!

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